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É isso, sei lá, mas acho que
amo você. Amo de todas as maneiras possíveis. Sem pressa, como se só
saber que você existe já me bastasse. Sem peito, como se só existisse
você no mundo e eu pudesse morrer sem o seu ar. Sem idade, porque a
mesma vontade que eu tenho de te comer no banheiro eu tenho de passear
de mãos dadas com você empurrando nossos bisnetos. E por fim te amo até
sem amor, como se isso tudo fosse tão grande, tão grande, tão absurdo,
que quase não é. Eu te amo de um jeito tão impossível que é como se eu
nem te amasse. E aí eu desencano desse amor, de tanto que eu encano.
Ninguém acredita na gente: nenhum cartomante, nenhum pai-de-santo,
nenhuma terapeuta, nenhum parente, nenhum amigo, nenhum e-mail, nenhuma
mensagem de texto, nenhum rastro, nenhuma reza, nenhuma fofoca e,
principalmente (ou infelizmente): nem você. Mas eu te amo também do
jeito mais óbvio de todos: eu te amo burra. Estúpida. Cega. E eu
acredito na gente. Eu acredito que ainda vou voltar a pisar naqueles
cocôs da sua rua, naquelas pocinhas da sua rua, naquelas florzinhas
amarelas da sua rua, naquele cheiro de família bacana e limpinha da sua
rua. Como eu queria dobrar aquela esquininha com você, de mãos dadas com
os pêlos penteados de lado da sua mão. Outro dia me peguei pensando que
entre dobrar aquela esquininha da sua rua e ganhar na mega-sena
acumulada, eu preferia a esquininha. A esquininha que você dobrou quando
saiu da casa dos seus pais, a esquininha que você dobrou chorando,
porque é mesmo o cúmulo alguém não te amar. A esquininha que você dobrou
a vida inteira, indo para a faculdade, para a casa dos seus amigos,
para a praia. Eu amo a sua esquininha, eu amo a sua vida e eu amo tudo o
que é seu. Amo você, mesmo sem você me amar. Amo seus rompantes em me
devorar com os olhos e amo o nada que sempre vem depois disso. Amo seu
nada, apenas porque o seu nada também é seu. Amo tanto, tanto, tanto,
que te deixo em paz. Deixo você se virando sozinho, se dobrando sozinho.
Virando e dobrando a sua esquininha. Afinal, por ela você também passou
quando não me quis mais, quando não quis mais a minha mão pequena
querendo ser embalsamada eternamente ao seu lado.
— Tati Bernardi
